Kendo
     Kendo ou quendô é uma arte marcial japonesa moderna, desenvolvida a partir das técnicas tradicionais de combate com espadas dos samurais do Japão feudal, o Kenjutsu.
O praticante de kendo é chamado de kenshi ou kendoka.

     No Japão, desde os seus primórdios, dentre vários armamentos, a espada vem sendo reverenciada. Isso se deve ao fato de haver muitas histórias relacionadas à espada, nos mitos e lendas japonesas. Além disso, as espadas eram ofertadas como tesouro divino aos templos ou recebidas como símbolo da nomeação de um generalíssimo.
Período Muromachi

Por volta do ano de 1350 d.C. o uso da espada japonesa deu um grande salto. A partir de 1467 d.C., por cerca de cem anos, o Japão passou por um período de guerras civis. Como conseqüência, a técnica de luta com espada foi estruturada sob o nome de Kenpo, ou Kenjutsu, e surgiram muitas escolas que tornaram-se transmissoras desses conhecimentos, cada uma à sua maneira. Dentre as escolas da época, podemos citar as três mais tradicionais: Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu, Kageryu e Chujoryu.

     O método de treinamento daquela época não usava espada de bambu nem protetores para o corpo como os usados atualmente. Cada escola praticava repetidamente suas técnicas na forma de kata, seqüencias de movimentos que visavam preparar os praticantes para enfrentar as mais diversas situações que poderiam vir a encontrar. O acúmulo de horas de treinamento fazia com que a pessoa pudesse parar o golpe próximo à pele do oponente. Em algumas escolas, esse grau de proximidade refletia o nível de desenvolvimento do praticante.
Período Edo

     A partir de 1615 d.C., com o sistema feudal já instalado, foi estabelecido o sistema de classes. Esse sistema propiciou um desenvolvimento especial, como algo próprio à classe guerreira. Por um lado, pode-se considerar que, recebendo a influência do zen-budismo e do confusionismo, aprimorou-se as técnicas ao mesmo tempo em que ganhava-se elementos morais e espirituais.

     Logo começou a ser praticado pelos guerreiros como um treinamento educacional que visava a formação do caráter guerreiro para a vida cotidiana e para as atitudes espirituais. Isso significava que o desenvolvimento espiritual, conquistado por meio da prática da espada, conduzia ao caminho da formação do ser humano, cujo objetivo era o ideal de elevar o nível espiritual de seu cotidiano.

     Por volta de 1712 d.C., Yamada Heisaemon e Naganuma Shiro da escola Jikishinkageryu e Nakanishi Chuzo da escola Ittoryu, por sua vez, aproximadamente em 1754 d.C., propuseram protetores primitivos e, nos treinos de suas escolas, passaram a utilizar a espada de bambu, o que trouxe um formato de Kendo próximo ao que conhecemos na atualidade.
Nesse método de treino eram requisitados muitos elementos espirituais, que foram cultivados, provavelmente, como pano de fundo para a manifestação da técnica dentro do processo de treinamento e como usar de forma melhor e mais correta a espada de bambu. Como conseqüência, o Kendo, dentro do processo de treinamento de suas técnicas, desenvolveu a relação entre natureza humana e técnica, construindo, assim, as bases de uma filosofia do kendo como caminho de busca para a vida e a existência humana.

     Do início do fechamento do Japão ao mundo exterior, em 1639 d.C., até o ano de 1866 d.C., devido à continua paz reinante, a necessidade de uso de arma de fogo foi abolida e o desenvolvimento desses artefatos interrompidos. Apesar disso, o uso da espada perdurou ao longo dos séculos. E como conseqüência, o Kendo, de um caminho cuja técnica era posta a serviço da luta física, que punha em jogo a vida ou a morte, acaba por atingir um elevado patamar, cujo caminho visava a educação e a formação do ser humano.
Período Meiji

     Como resultado do povo japonês, que desde os seus primórdios, cultivou uma educação calcada no caminho da pena e da espada, surgiu o kendo, que se desenvolveu visando a formação do ser humano e propiciando o caminho do guerreiro. Toda a evolução desta arte marcial ocorreu na era feudal, que perdurou por setecentos anos, terminando em 1868 d.C.

     Com a restauração Meiji, como primeiro passo para a modernização, foram introduzidos muitos elementos culturais da civilização européia no Japão e a cultura tradicional, por um tempo, foi deixada em segundo plano. Em 1876 d.C., a classe dos guerreiros – os samurais – foi extinta e, ao mesmo tempo, a prática de Kendo nas escolas foi abolida, chegando esta arte marcial até mesmo a defrontar-se com o perigo da extinção.

     Mais tarde, em 1890 d.C., o kendo volta a ser praticado nas escolas como atividade extra-curricular. Em 1895 d.C. foi criada a Associação Dai Nippon Butokukai, congregando todas as escolas de Kendo. Foi estabelecida uma política de difusão e de desenvolvimento da orientação desta arte marcial.

     Entre diversos Senseis e escolas envolvidas nesse processo de unificação do Kendo (Kendo Renmei), podemos citar:

Ono-ha Itto Ryu – Kagehisa;
Shinto Munen Ryu - Watanabe Noboru, Shibae Umpachiro, Negishi Shigoro;
Musashi Ryu - Mihashi Kanichiro;
Jikishin Kage Ryu - Tokuno Kanshiro, Abe Morie;
Kyoshin Mechi Ryu - Sakabe Daisaku.
Período Showa

     Com a derrota na Segunda Grande Guerra Mundial e por ordem do Comando Supremo das Tropas Aliadas no Japão, em dezembro de 1945, a prática do kendo foi totalmente proibida por ser considerada manifestação do ultra-nacionalismo pré-guerra e parte importante do treinamento militar durante a guerra.
Mas, em 1952 d.C., com a entrada em vigor do Tratado de Paz, o kendo começou a trilhar o caminho da revitalização e nesse mesmo ano foi criada a Liga Nacional de Kendo.

     A tradição do kendo não permaneceu como no passado, adequando-se aos novos tempos e modificando-se para melhor adaptação à sociedade moderna, formando o embrião do kendo contemporâneo
Atualmente

     Em 1970 foi fundada a Federação Internacional de Kendo (FIK), com sede no Japão. São mundialmente regidos e regulamentados pela FIK as atividades de kendo, iaido e jodo. Até 2008 haviam filiados na FIK 47 entidades representantes de países.

     O número de praticantes de Kendo vem aumentando continuamente (em 2005 a FIK estimava que no Japão existam cerca de 1.2 milhões de praticantes de Kendo, e no mundo 2.0 milhões).
Desde 2006 a FIK faz parte da General Association of International Sporting Federations (GAISF), entidade máxima do esporte mundial, que congrega entidades de diversos outros esportes (como FIFA, FIBA, FIVB) e artes-marciais (como Federações Internacionais de Aikido, Judo, Jujitsu, Karate).

     No Brasil a Confederação Brasileira de Kendo (CBK), é a representante da FIK. Em Portugal, esse trabalho é feito pela Associação Portuguesa de Kendo (APK).
A prática

     A prática do kendo não se limita ao manejo da Shinai (espada de bambu), Bokuto (espada de madeira) ou katana (espada longa japonesa), mas abrange também a prática e cultivo do Reigi (etiqueta) e do espírito.
     O ken (espada, técnica) é estudado de duas formas: o kendo com shinai (espada de bambu) e o Kendo kata, onde é usado o bokuto (espada de madeira maciça) ou o Katana (espada real, com lâmina).
     A prática e o ensino do Kendo não pode assumir caráter profissional ou comercial. Isso é: não é permitida a cobrança para o ensino do Kendo, salvo a quantia necessária a manutenção do Dojo (academia). Sendo essa uma Regra internacional determinada pela FIK.

Objetivo da prática de Kendo

Não golpear pontos incorretos.
Não desperdiçar golpes.
Golpear atacando e quebrando a postura do adversário.
Golpear com destemor, 'sem pensar na morte'.
Kamae (postura, base)

Há cinco diferentes Kamae em Kendo, com um número de variantes.
1. Chudan no Kamae: Este é o mais básico e fundamental Kamae, e serve como a raiz de todos os outros. Chudan também é conhecido como o Kamae de água devido à sua ?exibilidade e capacidades adaptativas. Um forte Chudan no Kamae serve tanto para produzir um forte ataque como uma defesa impenetrável.
Variantes:

Seigan no Kamae. Esta variante do Chudan é utilizada quando se enfrenta um adversário que está na Jodan no Kamae.
Chudan Hanmi no Kamae: Esta variante do Chudan é tomada quando se utiliza Shoto, e pode ser visto na Kodachi no Kata: Ipponme.
Chudan Iri-Mi no Kamae: Outra variante para Shoto, que pode ser vista no Kodachi no Kata: Nihonme.

2. Jodan no Kamae: Também conhecido como "Hi no Kamae" (Kamae de fogo) ou de "Ten no Kamae" (Kamae do Céu) é um kamae agressivo, tanto espiritualmente e ?sicamente. Quando se utiliza Jodan, podemos pressionar o oponente com seus ataques, assim como com o seu espírito. A e?cácia da Jodan é dependente mais do aspecto espiritual do que físico, daí Jodan é considerado um "Kokoro no Kamae"; Uma atitude ou mentalidade.
Variantes:

Morote Hidari Jodan: Esta é a forma normal de Jodan, onde o pé esquerdo está na frente e a shinai em um ângulo de cerca de 30 graus para a direita.
Morote Migi Jodan. A segunda versão do Jodan. Os pés são os mesmos que em Chudan e o shinai é segurada reta sobre a cabeça.
Age-to: É uma variante do Jodan onde apenas uma mão está no shinai, e a outra é mantida na cintura. Geralmente utilizado durante um Jodan Kara ni-dan waza ou após uma falha de um ataque Jodan Kara.

3. Gedan no Kamae. Gedan no Kamae também é conhecido como o Kamae da Terra. Embora possa parecer-se com uma postura defensiva, é uma postura capaz de atacar adversários, impedir um ataque ?agrante e criar oportunidades. Também ajuda a disfarçar a intenção do lutador. Muitos vão usar Gedan no Kamae como uma transição da Chudan no Kamae para um ataque de Tsuki. Segundo o livro "Kendo Fundamentais": "O Gedan no Kamae é usado quando você baixar o kensen e, ao mesmo tempo que protege o seu próprio corpo, evoluir para um ataque que está em conformidade com os movimentos e as ações do adversário."
Variantes:

Gedan Hanmi no Kamae. Encontrado no Kodachi no Kata: Sanbonme.

4. Hasso no Kamae: Hasso no Kamae também é conhecido como o Kamae da Madeira. Quando assume-se Hasso no Kamae, ele deve ser reto e forte como uma árvore, capaz de respeitar os seus adversários "de cima". Hasso é considerada uma variante do Jodan no Kamae, e portanto é uma postura agressiva, mas é pouco utilizada no Kendo moderno, exceto em momentos de transição quando utilizando Jodan no Kamae.
Variantes:

Existe Migi e Hidari Hasso no Kamae. Novamente, eles são (em geral), utilizados como transição para um ataque Jodan Kara "falso", ou como uma modi?cação de Katsugi Waza.

5. Waki Gamae: Waki Gamae também é conhecido como o Kamae de metal ou a Kamae de Ouro, indicando uma espécie de "preciosidade escondida". Esse Kamae é pouco utilizado no Kendo moderno, podendo ser visto no Kendo Kata: Yonhonme, e no Kodachi no Kata Nihonme.

     Cada um dos diferentes Kamae têm as suas origens e aplicações na luta e no Kata, ajudando a manter os laços entre Kendo moderno e suas origens.
Shiai (luta)

     No Kendo as lutas são realizadas com uma espada de bambu, chamada de shinai, e são usados protetores para todas as regiões de ataque, além de uma vestimenta especial: hakama (calça), dogi ou keiko-gi (camisa/blusa) e bogu (armadura). Alguns praticantes usam ainda o obi (faixa).

     São executados cortes no centro e nas laterais da cabeça (men-uchi), no antebraço (kote-uchi), na lateral do abdome (dô-uchi) e na garganta (estocada) (tsuki), e cada golpe deve ser anunciado com o Kiai, ou seja um grito que demonstre o espírito e a vontade do kenshi.
     As lutas duram de três a cinco minutos (com a possibilidade de haver enchô ou prorrogação) e são disputadas duas ou três lutas (melhor de três) que apenas culminam com um ippon, ou seja, golpe letal.

     Devido à existência de lutas e campeonatos em âmbitos regionais, nacionais e internacionais, o Kendo possui um aspecto competitivo bastante relevante, mas preservando sempre suas características marciais e a etiqueta (Reigi), destacando-se entre as artes marciais japonesas. No Kendo o critério de golpe válido/letal (yûkô-datotsu) é bastante subjetivo e está diretamente relacionado às origens marciais da arte, que prega a sincronia perfeita entre a energia do praticante ("Ki"), a trajetória e a precisão da espada (técnica, "ken") e a postura (necessária para a correta aplicação da força e a correta movimentação) ("tai"). Essa sincronia é denominada de Ki-Ken-Tai Icchi, e é um dos ensinamentos fundamentais do Kendo.
Nas lutas, conforme regulamento da FIK, é possível utilizar técnicas de Itto-ryu (uma única espada longa) ou Nito-ryu (duas espadas - uma longa e outra curta).
Uma observação quanto ao uso de duas espadas e do jodan no kamae é que a prática destas técnicas dentro do kendo é estimulada apenas aos alunos mais experientes, devido a importância fixarem profundamente os fundamentos básicos da espada antes que o praticante passe a lidar com técnicas mais avançadas.

     Nas 56 edições do Campeonato Japonês de Kendô realizadas até 2008, apenas 8 campeonatos foram vencidos por praticantes de Jodan: Chiba Sensei ganhou 3 vezes: 1967, 1970 e 1973. Aquando da sua primeira vitória tinha 22 anos e era 5º dan (Chiba sensei é 8º dan hanshi e lançou em novembro de 2008 um conjunto de três DVD’s sobre kendo, sendo o terceiro volume dedicado ao Jodan. Toda Sensei ganhou 2 vezes: 1963 e 1965. Aquando da sua primeira vitória tinha 23 anos e era 5º dan (Toda sensei é 8º dan hanshi e especialista em Nito Ryu). Kawazoe ganhou 2 vezes: 1972 e 1976. Aquando da sua primeira vitória tinha 21 anos e era 4º dan (Kawazoe sensei era o único que não era polícia. Kawazoe faleceu com 27 ou 28 anos num desastre ferroviário enquanto viajava pela China). Shodai ganhou 1 vez: 2008. Aos 27 anos e 5º dan, membro da polícia de Kanagawa, foi sua 4ª participação no campeonato.
Nihon Kendo Gata

    
Além da luta (shiai), um praticante de Kendo também se aperfeiçoa nos kata, técnicas específicas de Kendo que consistem em conjuntos de movimentos pré-determinados. Atualmente, existem sete kata para Tachi, a espada grande (também conhecida como Katana), e três para Kodachi, a espada curta (também conhecida como Wakizashi).

     No Kendo, os kata são sempre praticados em duplas, ao contrário das outras artes marciais, onde quem executa o Kata está sozinho, lutando contra oponentes imaginários.


     Um dos praticantes do Kata é denominado Uchidachi ou Uchitachi, desempenhado geralmente pelo praticante mais avançado. O outro é denominado Shidachi ou Shitachi, desempenhado geralmente pelo praticante mais novato. Nos Katas, Uchidachi é quem executa os ataques, enquanto Shidachi é quem executa o contra-ataque (é quem "ganha" o Kata). Por ser Uchidachi quem dita o rítmo do Kata, este costuma ser o praticante mais avançado.


     Como no Shiai (luta), nos 10 (dez) Kata do Kendo existem muitos detalhes filosóficos, além da técnica apurada, que devem ser desenvolvidos simultaneamente em diferentes Kamae (posições).
Nos sete primeiros Kata são com ambos utilizando Tachi (espada longa):

ambos em Jodan-no-Kamae
ambos em Chudan-no-Kamae
ambos em Gedan-no-Kamae
Uchitachi em Hasso-no-Kamae e Shidachi em Waki-Gamae
Uchitachi em Jodan-no-Kamae e Shidachi em Chudan-no-Kamae
Uchitachi em Chudan-no-Kamae e Shidachi em Gedan-no-Kamae
ambos em Chudan-no-Kamae


Nos três últimos Kata o Uchidachi utiliza Tachi e o Shidachi utiliza Kodachi (espada curta):

ambos em Chudan-no-Kamae
Uchidachi em Jodan-no-Kamae e Shidachi em Chudan-no-Kamae
Uchidachi em Chudan-no-Kamae e Shidachi em Gedan-no-Kamae
Bokuto Ni Yoru Kendo Kihon Waza Keiko Ho

     Esse método de treino básico com Bokutô vem sendo desenvolvido pelos mestres da FIK desde 1970, sendo uma série de Kata com Bokutô, com o propósito de:
Ajudar o praticante a aprender o conceitos de que o Shinai é a representação da Katana;
Desenvolver uma técnica e base solidas, que podem ser diretamente utilizadas na prática com Bogu;

     Desenvolver no prativante habilidades e conhecimento para a prática do Kendo Kata;
Desenvolver Reiho (etiqueta).
De uma maneira geral, nesse treino é possível treinar o ângulo correto da lâmina da Katana quando o golpe é aplicado. Dessa maneira diminui-se a diferença entre o treino e aplicação dos golpes com Shinai e com Bokuto, ou Katana
Os exercícios são os seguintes:

Kihon Ichi: Ippon-uchi no waza: Men, Kote, Do, Tsuki.
Kihon Ni: Nidan no waza: Kote-Men.
Kinon San: Harai waza: Harai-Men.
Kihon Yon: Hiki waza: Men Tsubazeriai kara no Hiki-Do.
Kinon Go: Nuki waza: Men Nuki-Do.
Kihon Roku: Suriage waza: Kote Suriage-Men.
Kihon Shichi: Debana waza: Men Debana-Kote.
Kihon Hachi: Kaeshi waza: Men Kaeshi-Migi-Do.
Kihon Kyu: Uchiotoshi waza: Do Uchiotoshi-Men.
Ao praticante que executa as técnicas dá-se o nome de Kakaritê, ao outro, o que recebe, dá-se a designação de Motodachi.
Comparando ao Nihon Kendo Gata, Kakaritê seria Shidachi e Motodachi seria Uchidachi.
Kendo no Brasil

     O Brasil tem uma grande tradição na prática do kendo, devido, entre outros fatores, ao grande número de imigrantes japoneses existente no seu território. O Brasil é o país que reúne maior número de imigrantes japoneses em todo mundo.

     A história das artes marciais japonesas no Brasil, entre elas o kendo, começa com a chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, em 1908. Inicialmente, o kendo foi praticado individualmente pelos imigrantes e seus descendentes, principalmente no interior do estado de São Paulo.

     Em 1933, na comemoração dos vinte e cinco anos do início da imigração japonesa, os praticantes de judô e kendo fundaram a primeira associação brasileira de judô e kendo, a “Hakoku Ju-Ken Do Ren-Mei”. Desta época, destacam-se os nomes dos mestres Eiji Kikuchi Sensei, Ryunosuke Murakami Sensei e Kobayashi Sensei. O kendo também era ensinado nas escolas de língua japonesa existentes nas colônias. Tamaki Sensei iniciou-se em Marília em 1938; Kasai Sensei, em Bauru.

     A derrota do Japão na 2.ª Guerra Mundial também afetou a vida dos japoneses aqui no Brasil. Escolas de língua japonesa foram fechadas e qualquer manifestação da cultura japonesa foi proibida. Desta forma, o kendo só volta a ser praticado no Brasil depois do final da 2.ª Guerra Mundial e só toma contornos mais organizados alguns anos depois, com a fundação da Associação Brasileira de Kendo (“Zen Haku Kendô Ren-Mei”, em japonês), em 1959.
Na cidade de São Paulo, os primeiros treinamentos foram provisoriamente realizados no centro da cidade e posteriormente, no inicio da década de 1960, passaram a ocorrer na sede de um dos primeiros clubes fundados pela comunidade nipo-brasileira, a Associação Cultural e Esportiva Piratininga (ACEP).

     É desta forma que a ACEP está ligada ao kendo desde sua origem, mantendo até hoje o treinamento de kendo como um dos grandes destaques em seu quadro de atividades.
     Além disso, a ACEP é o principal local de realizações de eventos oficiais, apresentações, campeonatos e exames de graduação da Confederação Brasileira de Kendo (CBK) e da Confederação Sul-americana de Kendo (CSK).

     Acompanhando a evolução do kendo no Japão, considera-se que a era moderna do kendo no Brasil começou na década de 1970. É nessa época que Chicara Fukuhara retorna do Japão trazendo os ensinamentos e orientações do novo kendo dos mestres japoneses. Este fato pode ser considerado um dos principais marcos do início do kendo contemporâneo no Brasil. A partir de então, o kendo passa a ser cada vez mais praticado, principalmente na cidade de São Paulo e no interior do estado.

Como fatos marcantes que acompanham este crescimento, podemos citar:

-outubro de 1981 – criação a Federação Paulista de Kendo (FPK).

-29 de julho a 3 de agosto de 1982 – o Brasil é país-sede do 5.º Campeonato Mundial de Kendo, realizado na cidade de São Paulo.

-agosto de 1998 – é criada a Confederação Brasileira de Kendo (CBK), tendo como filiadas fundadoras: Federação Paulista de Kendo (São Paulo), Federação de Kendo do Estado do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), Associação Metropolitana de Kendo (Brasília), Associação Kendo Shinko-kai de Londrina (Paraná).

-novembro de 2002 – o Brasil coordena a criação da Confederação Sul-americana de Kendo (CSK), tendo como filiadas fundadoras: Confederação Brasileira de Kendo, Federação Argentina de Kendo, Federação Chilena de Kendo.

     Existem mais de trinta academias de kendo filiadas a CBK, distribuídas pelos estados do Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Pernambuco, Espírito Santo, Mato Grosso, Pará e São Paulo (onde está localizada a maior quantidade). Existem também grupos organizados que treinam kendo sob a orientação da CBK em estados como Minas Gerais, Alagoas, Bahia e Paraíba, entre outros.
Há ainda, no Brasil, algumas entidades que incluem em suas práticas algumas das técnicas do kendo, ainda que, todavia, não lecionem, oficialmente e por completo, essa arte marcial. É o caso, por exemplo, da Confederação Brasileira de Kobudo (CBKob), que congrega os praticantes de kenjutsu.
Aspecto filosófico

     Quando da prática do Kendo, dentre os elementos que expressam a técnica, segundo o grau de desenvolvimento técnico do praticante, são de fundamental importância o espírito e o modo de encarar a vida do praticante, principalmente o quanto das regras de etiqueta o praticante internalizou.

     Principalmente, em relação ao espírito podemos dizer que os tratados de transmissão de Kendo de escolas como Shinteitoryu, Kyoshinmeichiryu e Nenryu apontam que o treinamento espiritual não é apenas necessário e, sim, uma tarefa extremamente difícil de ser cumprida.

Além disso, a racionalização e a ética, que permeiam as relações humanas, as regras de etiqueta, que se desenvolveram a partir do desejo de desfrutar essa atividade e que privilegiam o decoro, a compreensão e o respeito ao oponente, se efetivam no praticante do Kendo, pela habilidade conquistada através do treinamento.

     Essa postura faz nascer um “algo” em termos espirituais global. Esse “algo” é, ao mesmo tempo, a pessoa e o caminho da espada que a mesma percorre. Dessa maneira, desenvolveram-se gradativamente e sublimaram-se as técnicas do Kendo, assim cultuado, bem como a forma de levar a vida de seus praticantes e seus elementos espirituais. Estruturalmente, também, foi transmitida uma correlação estreita de interdependência entre seus elementos e podemos dizer, que hoje em dia, se constitui uma organização cultural própria do Japão.
Assim sendo, podemos pensar que a estrutura da etiqueta em relação ao oponente, em especial dentro do estilo de vida e da técnica do Kendo, cultivado ao longo de um processo histórico, é o elemento central dessa cultura tradicional. O Kendo, diz-se, começa com uma reverência e termina com uma reverência. A relação dos participantes no treinamento é de companheiros que aprendem juntos o Kendo e, é central, a idéia de que não são oponentes em relação de enfrentamento.
O vencer ou perder de uma luta é uma questão casual e natural. O comportamento que evidencia a preocupação com a luta como algo sem conseqüência futura, algo apenas do momento presente, deve estar sempre na mente dos praticantes. Deve ser enfatizado um comportamento severo em relação a si próprio, o que leva o participante a regular o seu eu para, construindo a sua interioridade, elevar-se espiritualmente. É, em conseqüência desse comportamento, que nasceu o espírito cortês que reverencia o parceiro e a honra.
No treino, quando não está ainda controlada a excitação psicológica, decorrente de severos ataques e defesas, é fundamental que os participantes façam mutuamente uma cortês reverência, refreando essa excitação. Através desse gesto, acredita-se que se está forjando a própria interioridade que controla as ações.
O fato de obedecer um formato assim rígido, propicia o auto-controle e a auto-disciplina e é algo que leva ao “caminho” – DO – que busca a existência e a forma de vida humanas. É algo que educa o espírito e enobrece o coração para a justiça do ser humano.
Em resumo, o Kendo é uma prática que privilegia a reverência correta e cortesia para com o oponente e a atitude severa para consigo mesmo, cujo sentido está na educação de um espírito justo e honrado. Assim, observando esta arte marcial através da história, vemos que essa prática possui um profundo conteúdo espiritual e educacional
O Kendo é uma das artes marciais modernas japonesas que mais mantém valores ligados às suas raízes. O texto abaixo, da All Japan Kendo Federation (federação japonesa de kendo), fala dos objetivos de todos os kenshis
O Objetivo do Kendo é disciplinar o caráter humano pela aplicação dos princípios da katana
O propósito de se praticar kendo é:

Moldar a mente e o corpo,
Para cultivar um espírito vigoroso,
E pelo treinamento rígido e correto,
Lutar para desenvolver-se na arte do Kendo,
Obter respeito à cortesia e à honra,
Para relacionar-se com os outros com sinceridade,
E para sempre ter como objetivo o auto-aperfeiçoamento.
Dessa maneira será possível uma pessoa amar seu país e sociedade, contribuir para o desenvolvimento da cultura e promover a paz e prosperidade entre todos os povos.
Em 1975, com a finalidade de popularizar a prática correta do Kendo, a IKF institui a divulgação do conceito do 'Propósito do Kendo'.


Kendo Rinen (Propósito do Kendo)

O Kendo é o caminho/busca do crescimento/aprimoramento humano por meio do aperfeiçoamento do manejo/uso da espada.

Kendo Shuuren no Kokoro Kamae (Postura Espiritual para o Aperfeiçoamento do Kendo)
Dedicar se sempre à pratica do Kendo 'Correto', por meio da busca do aperfeiçoamento da técnica de manejo da verdadeira espada com espírito e corpo, e com isto, fazer florescer a força espiritual com as características marcantes do Kendo de respeito e moderação.
E sobretudo, poder servir, com amor, à pátria e à sociedade, promovendo a paz entre as pessoas.
Estes conceitos propostos pela IKF em 1975 não são novos para o Japão(povo japonês). O conceito do 'Caminho' sempre foi a espinha dorsal do pensamento japonês. Em outras palavras, a idéia de que o processo de aperfeiçoamento da técnica e da prática leva ao desenvolvimento pessoal e espiritual e à formação do indivíduo.

     A pratica do Kendo leva ao aperfeiçoamento humano depende de como se pratica. É necessário praticá-lo seguindo os fundamentos do conceito do 'Caminho'. Isto é, buscar o aperfeiçoamento de corpo e espírito, mantendo o Kendo Shuuren no Kokoro Kamae, tanto nos treinamentos, quanto nas competições.
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