Iaido
     A espada no Iaido é um instrumento espiritual, sem dimensão material. As horas de treinamento dedicadas para que se possa atingir o domínio da técnica são horas em que o praticante entra em contato com seu eu interior (espírito).
Como uma arte marcial pode ser efetiva quando é praticada somente com o uso de katas contra oponentes imaginários? Essa questão é mais profunda e difícil de responder do que pode parecer inicialmente. O problema começa na definição de 'efetiva' e que efeito se deseja obter. Claro que nos katas não existe oportunidade de comprovação da técnica do praticante em combate, como existe no Kendô. O rigor na repetição dos movimentos do kata não deixa também espaço para adaptações em resposta às ações de um adversário real.

     Como uma arte marcial contextualizada no mundo atual, é muito fácil enxergar, superficialmente, o Iaido e outras formas de esgrima como extemporâneas, simplesmente por não ser usual nem esperado que alguém saia pelas ruas portando uma espada.
O que deve ser notado no entanto é o que está por baixo dessa observação superficial. O que deve ser observado é o modo como o praticante deve se portar para evitar conflitos. Isso foi explicado milênios atrás por Sun Tsu em sua obra A Arte da Guerra e, posteriormente, por muitos estrategistas. O praticante que treina com dedicação e correção e com a orientação de um Sensei, desenvolve a habilidade de reconhecer situações difíceis e de como evitá-las antes que se tornem problemas de fato. Mesmo sendo inevitáveis ele aprende a enfrentá-los antes que atinjam grandes proporções. Mesmo algumas sendo inevitáveis, o praticante aprende a manter um estado de espírito e postura corporal e mental, que não oferece, ao adversário, oportunidade de agredi-lo. Essa é a essência do Iaido, do Kendo e de outras Artes Marciais que não se transformaram simplesmente em esportes comerciais.

     O Kanji 'I' também pode ser lido como 'itte' e 'ai' como 'awasu' na frase 'Tsune ni itte kyu ni awasu' que significa: seja onde e o que estiver fazendo, sempre esteja preparado. Como preparado entende-se não só estar alerta, mas também ter treinado rigorosamente para que, se necessário, uma técnica decisiva possa ser utilizada para terminar um conflito. Golpes com uma katana normalmente são cabais, mas esse não é o ponto. No mundo dos negócios a pessoa deve estar preparada e agir decisivamente quando necessário. Será que a pessoa está preparada, tem a autoconfiança necessária?

     Quando um amigo desaponta uma pessoa, ela consegue lidar bem com esse tipo de situação, entendendo completamente as implicações e as conseqüências de suas ações? Ao cruzar uma rua e um carro aparecer como do nada ou algo cai sob sua cabeça enquanto está caminhando, seu corpo se encontra suficientemente equilibrado e sua mente suficientemente clara para lidar com esse tipo de situação e se colocar em segurança? Todos esses são exemplos práticos da aplicação do Iaido no mundo moderno.

     A prática do Iaido é educativa tanto para jovens estudantes, como para executivos, gerentes e empresários, em resumo para todo aquele que precisa e quer aprimoramento nos principais valores humanos e de cidadania.
Não se deve confundir Iaidô com Kendô ou Kenjutsu.
     Iaidô é a arte marcial japonesa do desembainhar da espada. Os katas (séries de movimentos) são divididos em quatro partes básicas: o desembainhar (nukitsuke), o corte (kirioroshi, por exemplo), a limpeza do sangue na lâmina (chiburi) e o reembainhar (noto).

     A prática do Iaido se reveste de grande profundidade pois o Iai tem como objetivo o autodomínio do praticante e a derrota do adversário sem a necessidade de desembainhar a katana. Em outras palavras, a conquista psicológica do adversário sem que haja necessidade do uso da espada.
     O Iaido é uma mistura única de ética Confucionista, de métodos introspectivos do Zen-budismo e da filosofia Taoísta, tudo isso temperado pelo rigor do Bushido.
     O Iai proporciona um estado mental focado e sereno ao praticante, podendo ser entendido como uma disciplina meditativa.
A Origem do termo
     A tradição e história do Iaido remontam cerca de 500 anos. O Iaido, como é conhecido atualmente, começou, provavelmente, com Iizasa Choisai, o fundador do estilo Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu. Essa escola ou tradição incluía, em seu currículo, a prática com vários tipos de armas. Desde o uso da espada e do bastão (Jo) ao arremesso de facas e ao uso de lanças (Naginatas). Uma parte de seu currículo consistia na técnica de desembainhar rápido e golpear imediatamente com o uso de espadas. Essa técnica era usada para autodefesa ou ataque preventivo. Essa parte do currículo tinha o nome de Iaijutsu.

     É reputado a Hayashizaki Jinsuke Shigenobu (1542-1621), como em toda Arte Marcial, ter recebido inspiração divina para o desenvolvimento de sua técnica, assim como Iizasa Choisai. Inspiração essa que o levou a desenvolver um conjunto de técnicas que denominou Muso Shinden Jushin Ryu Batto Jutsu. Aqui, a palavra Batto significa simplesmente desembainhar a espada.
O fator comum relevante em ambas às tradições (escolas) ou Ryu, assim como em muitas outras tradições que lidavam com katana, era que suas práticas envolviam somente o uso de katas, sempre preconizando adversários imaginários em seus treinos.
A origem do termo Iaidô é atribuída à Nakayama Hakudo (1869- 1952), o fundador do estilo Muso Shinden Ryu.

     Hoje em dia é amplamente usado para referenciar a prática do Iaidô tanto nos estilos antigos (koryu) quanto nos sistemos modernos, como Seitei Iai e Toho Iai.
Ao longo da história diferentes expressões foram utilizadas para se referir às técnicas do saque da espada durante o combate. Durante o Período Muromachi (1392-1572) a era chamado de battojutsu. No período Edo ficou conhecido como Iaijutsu.

     A denominação atual de Iaido é amplamente usada no meio marcial em publicações especializadas japonesas e em eventos oficiais para se referir genericamente à todas escolas, antigas e modernas, que ensinam o iai. Porém existem críticos à esta denominação, como o mestre Nakamura Taizaburo (1912-2003) considerando mais correto utilizar o termo battodo, ou iai-battodo.
A Estrutura do Kata
Cada kata segue a mesma estrutura básica de quatro partes: Nukitsuke (desembainhar e cortar) Kirioroshi (corte principal com o uso das duas mãos) Chiburi (retirada do sangue da lâmina) e Noto (embainhar a espada); existem dentro desse formato variações consideráveis. Dentro das mais comuns encontram-se: golpear para frente com o tsuka (empunhadura da katana) antes de desembainhá-la, puxar a bainha (saya) para trás e golpear imediatamente girando-se para trás, cotar em ângulos diferentes de horizontal e vertical, e.g.: diagonalmente de baixo para cima e de cima para baixo ou pela lateral, entre outros.

O Formato de uma Seção de Treino
Após o aquecimento e alongamento, o treino começa com o rito de etiqueta de abertura, que consiste de kamiza ni rei (curvar-se para o lugar sagrado), sensei ni rei (curvar-se para o instrutor) e o to rei (curvar-se para o katana). Em seguida inicia-se uma seção de suburi (prática dinâmica de cortes) e kihon incluindo Chiburi e Noto. A depender do tamanho e nível da turma, outras técnicas derivadas dos katas são exercitadas antes da prática dos katas propriamente dita ser iniciada. A série de katas, freqüentemente, se inicia com o sensei explicando algum ponto que deve ser especialmente observado pela classe ou por algum subgrupo específico da mesma. A isso se segue a pratica formal, em que todos praticam os katas em conjunto sob o comando do líder do dojo ou um treino livre quando os katas são praticados sem sincronismo e individualmente, cabendo ao instrutor a observação e correção de pontos de cada praticante de forma individual. Ao final da seção, todos fazem a etiqueta de fechamento em conjunto.

O Keiko
Esse termo significa treino ou prática, mas é mais que isso. É o estágio em que os movimentos são aperfeiçoados por repetição lenta, dividindo-se o kata em suas partes componentes e pela contextualização da técnica em situações e confronto real. Com o tempo, o praticante começa a entender os princípios de Metsuke (correto uso dos olhos), Seme (pressão sobre o adversário) com o objetivo de controlar o adversário. Durante o keiko também são apreendidos os conceitos de Maai (distância de combate) e Ma(tempo - timing).

O Currículo
O aluno, após aprender as bases de como segurar a katana e cortar, é introduzido gradualmente aos doze katas padronizados pela All Japan Kendo Federation. Esses katas foram desenvolvidos para servir como um padrão para ensino, graduação e competição de forma. Seus movimentos são derivados das formas das escolas antigas (koryu) mais difundidas e, embora representando um estudo base para preparação da prática de koryu, eles continuam sendo usados mesmo em estágios mais avançados, como as formas padrão utilizadas pelos sensei para demonstrar princípios básicos da técnica.
Além das formas padronizadas, existem as formas das escolas antigas (koryu). As escolas antigas mais difundidas no Japão são Muso Shinden Ryu e Muso Jikiden Eishin Ryu, ambas são derivadas da tradição Muso Shinden Jushin Ryu Batto Jutsu. Essas escolas têm cinco conjuntos de katas, três praticados como solo (Iaido) e dois praticados a dois (Ken jutsu). À medida que o estudante progride, o alcance da interpretação dos katas se amplia. Enquanto os estudantes iniciantes têm um conjunto de movimentos rigidamente definidos, os estudantes mais avançados já são capazes de imaginar o Kasso Teki (inimigo imaginário) se movimentando e agindo diferentemente.
Assim, eles adaptam os katas de acordo com a necessidade. De modo similar, nas práticas em duo, o estudante (shidachi) deve aprender a cobrir seus pontos fracos (Suki - aberturas), caso falhe, o professor (uchidachi) deve mostar-lhe onde está fraco, podendo atacá-lo de forma diferente do prescrito originalmente no kata. Isso é o início do aprendizado de como estar sempre preparado para qualquer eventualidade no Iaido.

Graduações do Iaidô
A graduação de Iaidô obedece aos ditames da IKF. Atualmente, a graduação segue a seguinte progressão: 5º kyu (o grau mais baixo) ao 1º kyu – 1º dan ao 8º dan (o grau mais alto).
Paralelamente, existem títulos que podem ser conferidos de acordo com as contribuições do praticante à arte. Atualmente, existem três: Renshi (praticante avançado), Kyôshi (praticante professor) e Hanshi (praticante modelo).
O título de Renshi pode ser conferido para praticantes a partir do 6º dan, o de Kyôshi a partir do 7º dan e o de Hanshi, o mais elevado, pode ser conferido apenas para praticantes que atinjam o 8º dan.
Nos exames cada praticante deve realizar 5 Kata. Oficialmente a FKI (Federação Internacinal de Kendô) pede que os dois primeiros sejam Koryu (estilo antigo) e os três seguintes do Seitei Iai. No dia do exame a banca examinadora escolhe e anuncia os Kata de Seitei Iai a serem executados por todos os examinandos, independente de graduação. Ou seja, do exame de aspirante ao mais graduado todos farão a mesma sequência de kata de Seitei Iai, além dos outros 2 Kata de um Koryu da preferência do praticante.
A prática do Iaidô
A prática é feita visualizando-se os inimigos de acordo com os princípios de cada kata, não tendo necessariamente um oponente físico. Para fins didáticos, podem-se executar os movimentos com oponentes reais.
Um iniciante na arte utiliza uma espada de madeira (bokutô) ou uma iaitô (espada com lâmina de liga metálica). Os praticantes mais avançados utilizam shinken, espadas de aço com fio.
Os campeonatos, são feitos como os campeonatos de Kata de Karatê, ou seja, dois competidores executam 5 katas, dois do koryu que praticam de escolha pessoal e 3 de Seitei Iaido escolhidos pela banca, que serão executados em comum. 3 juízes (sendo um principal e dois auxiliares) dão o veredito levantando as bandeiras (vermelha e branca) da cor representativa do competidor que cada um entendeu que executou melhor os Kata. A prova deve durar um mínimo de 5 e um máximo de 6 minutos, qualquer coisa fora deste tempo acarreta em desclassificação automática.
O Iaido no Brasil
     O início da prática do Iaidô, no Brasil, se confunde com o início da prática do kendô, ou seja, com a chegada dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, em 1908. Porém, a chegada de dois senseis do Japão no Brasil, primeiramente, Asahi Sensei, em meados da década de 1970, e posteriormente, Nakakura Sensei, é considerada um ‘marco’ do início da era moderna do Iaidô no Brasil.
     Muitos dos atuais Senseis de Iaidô, incluindo Kiyohara Sensei, Tadachi Tamaki Sensei (atual presidente da CSK - Confederação Sul-americana de Kendo, e fundador da CBK) e Kimura Sensei (falecido em 2008, mas que com mais de 90 anos, continuou a praticar, com o vigor invejável, tanto Iaidô quanto Kendô), começaram a praticar Iaidô sob a orientação dos Senseis Asahi e Nakakura. Este último realizou o primeiro exame de graduação de Iaidô no Brasil.

     Mais recentemente, dois eventos contribuíram para a expansão do Iaidô no país.
O primeiro foi o início das visitas anuais, organizadas pela CBK (a partir do final da década de 1990) de senseis japoneses ao Brasil, destacando-se entre eles, Tomoharu Ito Sensei, 8º Dan Kyoshi de Kendô e Iaidô, que desde então já esteve no Brasil três vezes, para ministrar treinamentos e participar de bancas examinadoras.

     O segundo foi a chegada, em 2003, de outro sensei japonês, Toshihiko Tsutsumi, 6º Dan Renshi em Iaidô. Tsutsumi Sensei é tido como o mais jovem praticante a ter recebido essa graduação (35 anos de idade). Foi aluno de um dos três últimos 9º Dan. Seu Sensei foi aluno direto de Hakudo Nakayama (1873-1958), fundador do estilo Muso Shinden Ryu Iai.
Atualmente, o Iaidô é praticado por centenas de Iaidokas no Brasil. No estado de São Paulo, as academias de Piratininga, Bandeirantes e São Carlos oferecem treinos regulares de Seitei Iaidô, segundo as normas da IKF, sob a supervisão da FPK (Federação Paulista de Kendo) e CBK. No Rio de Janeiro é possível praticar Iaidô na AKRJ e na Associação Mugen de Kendô. Nos últimos anos vem crescendo muito a prática do Iaidô em Dojos de Kendô filiados à CBK em diversos Estados do Brasil, como Pará, Bahia, Espírito Santo, entre outros.
O último exame de graduação de Iaidô realizado no Brasil ocorreu em julho de 2008, quando fizeram parte da banca examinadora os senseis: Tadachi Tamaki, Tomoharu Ito e Toshihiko Tsutsumi.
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